Ufanismos e paradoxos do ‘Agro Pop’

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Problematizar sucessos é incorrer no risco de ousadia, excesso de preciosismo, quando oportuno e cômodo seria apontar o dedo aos limites, fracassos de um agroprodutivismo, respaldado meramente por balança comercial. No entanto, nem todo sucesso é sinônimo de bilharete. Por vezes, revela cicatrizes profundas, sob o tecido corolário do êxito, que encobre dolorosas feridas, que sangram ao custo de acúmulos degradantes – e como a terra não mente ou esconde suas dores, ela se revela como ferida hemorrágica.                                                     

De retirante família camponesa, fomos empurrados ao mundo urbano na década de 1970, nunca deixei de pisar no solo onde foi enterrado meu umbigo de nascituro doméstico pelas mãos de minha avó parteira. E assim passei a infância visitando o lugar de minha ancestralidade. Ali, com a alegria de um urbanoide pobre (em férias de escola) para além das peraltices, conheci propriamente os desafios enfrentados nas pequenas propriedades de trabalho braçal e produção artesanal destinada ao consumo familiar.

► O que vi na década de 1980

Nas idas e vindas deste período, em meados dos anos 80, ouvi as primeiras conversas sobre o cultivo de uma semente ‘lucrativa’ que mais tarde compreendi tratar-se da soja. Porém, diziam que tal cultivar não era para a pequena propriedade (talvez nem as grandes), embora cooperativas do agronegócio regional incentivassem os pequenos (alguns miseráveis) agricultores a plantar. Mesmo que permanecesse aproximadamente 150 dias (quase meio ano) ocupando o solo e inviabilizando o cultivo de alimentos básico as famílias – o que nos oportunizava chamá-la também de ‘grão da fome’ em propriedades de até 7 hectares!

Neste espaço de tempo, conheci também a suinicultura e avicultura em grandes alojamentos, com placas identitárias na entrada das propriedades sinalizando um processo de organização produtiva que não era para as famílias. Era sim, para abastecer grandes mercados, circuitos longos ao custo da mais valia da terra, degradação ambiental, subordinação da saúde e condicionante da força de trabalho do agricultor. Ciclo vicioso que se consolida agora no confinamento para produção de leite, fortalecendo uma hegemonia de controle do tempo, espaço, domínio, posse das propriedades e exclusão dos pequenos agricultores. 

O que observamos nas andanças

Assessorando entidades da agricultura familiar, entendi que a nominada Revolução Verde havia feito de alguns afortunados do lucro, outros meras engrenagens da produção, da terra uma vítima ambiental, e a uma hegemônica maioria escravos do produtivíssimo: sem lucro, saúde, terra, propriedade, tempo, voz, vez e identidade. Mas com a possibilidade de se chamar empreendedor rural. – Um processo a desconstruir o sujeito comunitário do campo, consolidando a ferramenta perversa neoliberal do individualizar para fragilizar. O que responde parte dos desafios colocados ao sindicalismo e todas as organizações da categoria social.

Mas a suposta grandeza de um projeto para balança comercial tão propalado pelo capital e porque não dizer também, por muitos ‘numerologistas’ de commodities do campo progressista, não objetiva levar em consideração os impactos que estão por trás do modo de produção no agronegócio. Um sistema que além de impactar violentamente no meio ambiente, destruir a base cultural de uma categorial social, ameaça nossa permanência como espécie por aqui. Seja esta última, pela produção para escala global abandonando a soberania local ampliando a mesa da fome e miséria, seja pelo uso indiscriminado de agroquímicos e uma nanociência para sementes que não garante a saúde humana, esteriliza a autonomia dos agricultores e ameaçam a soberania dos povos.

Modelo agro pop e as ameaças veladas

Não bastasse, o momento oportuniza dizer que o agronegócio é um sistema pandêmico de zoonoses. Problema tão grave, que uma parcela significativa de doenças infecciosas que acometem espécies animais inteiras no planeta, assim como, são potenciais contaminantes humanos. – O que se revela no momento a possível origem da COVID19. – Some-se a isso, as endemias e pandemias no agronegócio planetário como: ‘Peste Suína Africana’, a ‘Gripe Aviária’, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio, (ou MERS) uma doença provocada por outra variante dos Coronavírus (o MERS-CoV), a Encefalopatia Espongiforme Bovina (Mal da Vaca Louca). Se não suficiente, junte a este pacote mortal as conhecidas bactérias da toxoplasmose, hidatidose, equinococose, teníase, cisticercose, brucelose e salmonelas.

Sei que nem toda provocação resulta reflexão, mas não fazer, é padecer incólume ante ao óbvio – e não podemos sucumbir a armadilha da inércia, que legitima o lucro-pelo-lucro se usando da mais valia da terra e a esterilização do planeta via concentração destrutiva e capital improdutivo. – Quem está preocupado com as grandes ameaças endêmicas ou pandêmicas do agronegócio? Não será o capital improdutivo do agronegócio, que neste momento cozinha no caldeirão da ganância o prato de nossa soberania alimentar e nutricional. Pois, somente o quarteto ABCD (ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus) dominam o comércio planetário de commodities agrícolas. Acrescente a esta bomba relógio os pacotes ‘milagrosos’ da Bayer/Monsanto.

Na resteva das colheitas sobra provocações

O que nos resta além de número da balança comercial? – Resta o ônus do violento impacto ambiental, a destruição física, mental, social e espiritual do agricultor. A desconstrução do sujeito do campo e as ameaças permanentes de um vírus ou bactéria do desenfreado capitalismo agrícola periférico ou central, colocar o planeta em xeque mate, mas diferente de agora, sem salvação. Em última instância, resta a pedagogia deste momento. Que nos sirva de limiar para uma nova esperança, com mudanças profundas de consciência a uma nova ética planetária do cuidado, respeito a vida, solidariedade, resiliência e sororidade entre os seres. Do contrário, pela inteligência esterilizada e nossa consciência falida, nos consumiremos em autofagia até o colapso final.

Não há mais tempo, a decisão de ontem é produzir e consumir para viver, ou insistir no modelo convencional para morrer. Diferenças entre agricultura familiar, camponesa e agronegócio não é simplismo de nomenclatura, masturbação mental da semântica ou conceito de planilha para economistas de escritório, as diferenças no modo de ser, viver e produzir são abissais. O que por si só suscita profundas reflexões, começando pelo paradoxo do suposto sucesso produtivo de um modelo pop, mas que revela 1 bilhão de famintos no planeta e nos oferece uma ‘pequena’ mas singela verdade: agroecologia não é autofagia, portanto, a escolha sobre modelo e o que queremos consumir nos pertence Ic et nunc, (aqui, agora). Do contrário, vamos providenciar nossos flutuantes temporários, o barco vai afundar e não haverá resgate!  

Prof. Neuri A. AlvesAssessor de Formação e Elaboração Fetraf-SC/CUT

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