A luta das Mulheres a me moldar

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Arquétipo é um conceito usual na psicologia analítica do suíço Carl Gustav Jung. Embora a origem seja a palavra grega ‘arché’, principio, fundamento, o que no ‘frigir dos ovos’ (em subversiva semântica) se encontra com a concepção Junguiana. Porém, muito antes de encontrar-me com as dimensões de anima (presença do feminino) e animus (presença do masculino) descobri em mim e no mundo, sensibilidades que convergem, dialogam. Problematizam realidades enraizadas no patriarcalismo como processo histórico, observado no seio familiar com seis irmãs, mais a mãe progenitora encastelada, enclausurada no lar – e porque não citar, minha experiência de aluno numa sala de 40 mulheres no magistério escolar na década de 1990.

Meu contato com a obra do pensador suíço ainda na tenra idade preencheu-me de assombro, ousadia e temeridade. – Assombro ao entender a possibilidade do compreensível, mensurável a presença do feminino (anima) em mim segundo Jung. Eu, primogênito numa família de sete mulheres, adolescente participe das tribos jovens em afirmação da testosterona. – Ousadia, porque apropriar-se de uma bengala de ciência (mesmo que frágil), por vezes nos dá sensação de poder, principalmente ao tratar do que ainda não temos acúmulos suficientes – e por fim: temeridade, ao mexer no enferrujado, mas cortante machado secular do patriarcado arcaico, estupido e real.  

Não tenho problema de dizer que sou a soma de muitas mulheres, por vezes excessos de anima e escassez de animus. Há em mim parcela de muitas mulheres – e espaço para acrescentar-me um pouco de tantas outras com suas causas, sabedorias e sensibilidades. Mas não quero tratar dos dias que virão, quero problematizar os dias que são e estão, pois aqui as dores do mundo têm cor, sexo, gênero e categoria social. Tem referencial velado, silêncios que matam, contradições que ferem, negações que revelam e elucubrações que se esvaziam.

Talvez por isso, curioso do mundo, ousado provocador, aprendiz colaborador da luta me coloco ao lado das mulheres organizadas em entidades, movimentos, núcleos de resistência ao abandono e a espera de mãos humanas a reatar coragens. E munido destas, enfrentar o divórcio displicente do Estado que teria o papel de lhes assistir – e tantos outros, injustos rompimentos. Das relações que as violentam no seio familiar a transversalidade de violências presente nas interações cotidianas e que deveriam de algum modo nos sensibilizar, mexer por dentro, mas não mexe, nem mesmo pela narrativa histórica de vidas perdidas na luta diária por justiça, equidade.  

Há alguns anos, anônimo participe no plenário de um simpósio latino americano, quisera o destino que Eduardo Galeano escolhesse alguém para presentear, e ganhei um dos mais belos presentes, seu livro ‘Mulheres’. Nele, a intensidade e sensibilidade de um escritor que em suas narrativas faz-nos ver sangue e sofrimento, ouvir gritos e rostos violentados, sensibilizando-nos para o aparente sofrimento distante. Galeano não descreve personagens, ele ilustra vidas, rostos, sujeitos. Mulheres a protagonizar história e aquelas por ela esquecidas – nada passa despercebido em sua vivaz alma latina, perspicaz de militante e sensível escritor. São histórias narradas de mulheres que sonham e são vítimas do sonhar, sobreviventes e que nos ajudam sobreviver. Narrativas comoventes pela determinação e subversão, o toque da fragilidade que não as apequena, mas que humanamente nos atinge como flecha, ou deveria minimamente nos sensibilizar – embora difícil mensurar, ante a realidade que vivemos em nosso país.

A intensidade de suas personagens femininas e suas causas me afetam, me reconstroem, preenchem vazios, provocam sensações adormecidas pela insensibilidade de um tempo gélido como iceberg à deriva. Difícil não se comover com as causas descritas de Joana d’Arc à Rosa Luxemburgo, de Eva Peron às dores infindáveis de esperanças das Mães da Praça de Maio. Entre tantos relatos de lutadoras conhecidas, sua perspicaz sensibilidade a revelar-nos as mulheres escondidas na história, das que lutaram na Comuna de Paris às que se rebelaram nos prostíbulos da patagônia. Com impar sensibilidade o escritor latino não as descreve, mas as desenha para que possamos ao menos ver, se nos falta dignidade para sensibilizar.

E você? – De quanta sensibilidade tem sido o escrever, o pensar, participar, assimilar e integrar-se a causa pela justiça social? – Difícil dizer, quando lutamos primeiro para vencer o que nos violenta internamente como processo histórico. Talvez por isso saiba, o assombro que toma-me a alma agora – mas também, o quanto ainda posso apreender junto as mulheres que diariamente comigo compartilham angustias da luta. As que permite-me visitar suas trincheiras organizativas e reservam tempo a ensinar-me. E mesmo que vítimas seculares, convidam-me para dividir seus dias de desafios e dores nas trincheiras de resistência, como se ao gênero algoz, concedesse mais uma dose de confiança – se antes petrificado, me diluo em seus gestos. 

Por isso, o meu findar é feito de memória, lindas lembranças e um revelar das mulheres presentes em minha vida: da amada companheira de todos os dias, a mãe que desafiou a miséria e todas as dificuldades possíveis oportunizando-me este mundo. Com elas e por elas na origem, memorar as mulheres camponesas e agricultoras familiar que fazem brotar da terra ardida dias de esperanças. As colegas de trabalho pela ousadia de afrontar o patriarcalismo velado nas relações cotidianas, a coordenadora de mulheres na federação pela coragem de assumir tamanho desafio. Enfim, a todas as companheiras de luta que encontro pelos caminhos da vida e que pelo diálogo permanente tenho aprendido tanto, fica o muito obrigado e o renovar de compromissos.

Eu sou um pouco de vocês – sou anima e animus, sou lágrimas e lenço, bandeira e mastro, estrada e pegadas, sou aprendiz de Arqué e operário da Diké – sou 8M com vocês!

Prof. Neuri A. Alves – Assessor de Formação e Elaboração Fetraf-SC

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