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UE-Mercosul, um acordo envenenado


07/08/2019

UE-Mercosul, um acordo envenenado


Após 20 anos de negociações, no final de junho de 2019, o Mercosul (Brasil-Argentina-Paraguai-Uruguai) e a União Europeia chegaram a um acordo comercial sem precedentes. O CETA, o acordo entre o Canadá e a mesma UE, é comparativamente insignificante. Celso Amorim, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Presidente Lula, observa que não é por acaso que a UE, de repente, insiste no acordo, no exato momento em que o Brasil e a Argentina estão economicamente e politicamente enfraquecidos. Será que pode ser esse o caso?

Posso me concentrar no Brasil? Muito recentemente, mais de 600 cientistas pediram que a sustentabilidade estivesse no centro das negociações. Em uma carta aberta, 300 organizações da sociedade civil instaram a UE a suspender as negociações. Foi em vão. Qual o motivo da preocupação deles? Desde janeiro de 2019, o país tem um presidente de extrema-direita: Jair Messias Bolsonaro. Às vezes ele é chamado de ‘O Trump dos trópicos’, mas ele se parece mais com o outro Messias, o Filipino Duterte. Bolsonaro foi levado ao poder pelos três “B’s” que controlam o parlamento: o “B” de Bala (a indústria de armamento), o “B” da Bíblia (as igrejas pentecostais conservadoras) e o “B” de Boi (como símbolo da poderosa agroindústria com seus latifundiários). Uma das primeiras decisões de Bolsonaro foi ‘estacionar’ a FUNAI, o órgão federal dos direitos dos povos indígenas, no Ministério da Agricultura. Um velho sonho se torna realidade: a agricultura de exportação em larga escala agora pode ocupar o Cerrado (uma savana rica) e a Amazônia ainda mais facilmente. Ao mesmo tempo, a resistência dos povos indígenas, dos sem-terra e dos pequenos agricultores familiares é criminalizada. O presidente da ‘Bala’ garantiu, de imediato, que latifundiários pudessem comprar mais armas.

Desde que tomou posse, já foram liberados 262 novos agrotóxicos, muitos dos quais são extremamente tóxicos. A maior parte desses agrotóxicos está proibida na Europa, mas acabam nos nossos pratos e nos nossos corpos através do comércio internacional. Sem falar dos corpos das crianças brasileiras em idade escolar, dos cidadãos das cidades, dos agricultores familiares (orgânicos) e dos indígenas no campo. Para que fique bem claro, estamos falando de fazendas entre 2.000 e 150.000 hectares de monocultura de soja, algodão ou cana de açúcar. O veneno é abundantemente pulverizado por aviões. Mesmo com ventos de baixa intensidade, o produto vai parar, por exemplo, em crianças nas escolas. Ou, tomemos a reserva indígena Xingu, uma imensa região de Cerrado e Amazônia, onde 17 povos estão tentando sobreviver. Eles são ameaçados não apenas por sojicultores que cobiçam suas terras. Não, a imensa área está completamente cercada de monoculturas de soja a serviço da agroindústria européia e chinesa. Todos os rios que desembocam no rio Xingu têm origem no meio de desertos de soja. A água é envenenada com agrotóxicos e metais pesados. Os índios nadam, bebem e fazem a sua comida com esta água extremamente poluída. E como é que ficam a UE e os direitos humanos no outro lado do oceano?

E... como é que fica o nosso modelo agrícola na União Europeia? Quais agricultores familiares conseguem competir com uma empresa agrícola brasileira de 80.000 hectares? O que acontece com nossos criadores de gado, que já comercializam seus produtos por preços subvalorizados, se forem importadas 99.000 toneladas adicionais de carne de bovino? E as exigências sanitárias que impomos aos nossos agricultores aqui, quando 180 mil toneladas de carne de frango brasileira inundarão nosso já saturado mercado? É sabido que o uso de antibióticos nas mega-granjas do Brasil é muitas vezes maior do que em nossas regiões. E o problema da salmonela, que o agronegócio brasileiro não consegue controlar? Aparentemente, os nossos agricultores terão de pagar pelo setor de serviços da Europa e pela ganância da indústria automobilística e química da Alemanha. Mercedes, Volkswagen, BMW, Bayer e, naturalmente, outras empresas europeias que têm os seus escritórios de lobby em Bruxelas. A Bayer incorporou o Roundup da Monsanto. O Roundup é abundantemente pulverizado de aviões. Há dez anos, o Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos por habitante. Ao mesmo tempo, a Bayer tem inúmeros medicamentos. Se os brasileiros ficarem doentes por causa do veneno, eles podem ir às farmácias que se encontram em cada esquina. A Monsanto era o verdadeiro diabo dos movimentos sociais brasileiros. Isso agora é neutralizado pelo chavão brasileiro: “O que é Bayer, é bom”. Estão todos felizes agora?

O acordo ainda não foi ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos nacionais. Podemos esperar que ele ainda encontre a resistência necessária?

Luc Vankrunkelsven

(Luc Vankrunkelsven é autor de vários livros sobre o tema. O título do último é: “A rã que não se deixa ferver. Clima em movimento”, e foi publicado em 2018, em Curitiba, por Luiz Young Editora: luizfyoung@yahoo.com.br)

Até agora, julho de 2019, esta Opinião já foi reproduzida em dez publicações e compartilhada inúmeras vezes na mídia social.

Houve uma forte reação de alguém que trabalhou para a indústria química toda a vida. O homem afirma que Bayer só tem objetivos nobres.

Tal como em Brasília e em Washington DC, em Bruxelas também há muito lobby. A organização ‘CEO [Corporate Europe Observatory = Observatório Europeu das Empresas]’ estuda o trabalho de lobby destas multinacionais. Veja aqui a reação de Nina Holland, da CEO.

Opinião: As atividades de lobby da Bayer não se baseiam na ciência, mas na busca do lucro. - Segundo o senhor Robert D’hollander, as atividades da Bayer-Monsanto têm apenas fins nobres. Infelizmente, a imagem que emerge das evidências que reunimos em torno das atividades de lobby da Bayer ao longo dos anos é muito menos bela. Por exemplo, a investigação científica demonstrou que houve uma enorme redução na quantidade e na diversidade de insetos, o que constitui uma grande ameaça para o nosso ecossistema. A AESA [Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar] concluiu que os neonicotinóides são parcialmente responsáveis por esta situação. Os fabricantes, em particular Bayer e Syngenta, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para poderem continuar a vender estes produtos muito nocivos: um processo judicial contra a Comissão Europeia, ameaçar com prejuízos econômicos, e transferir a culpa para os agricultores, que, segundo eles, teriam utilizado os agrotóxicos de maneira errada (o que é difícil de imaginar no caso de sementes com revestimento). Bayer também desempenhou um papel crucial na não implementação das medidas da UE contra os produtos que provocam desequilíbrios hormonais e podem causar graves efeitos na saúde, especialmente no desenvolvimento dos nascituros.
Nem todos os agrotóxicos são ‘seletivos’, como afirma D'hollander. Pelo contrário, Roundup (glifosato) e Basta (glufosinato) são herbicidas não seletivos, o que significa que matam quase todas as plantas, exceto aquelas que foram tornadas tolerantes a eles por meio de manipulação genética. Por conseguinte, estes herbicidas têm um efeito negativo na biodiversidade. O glifosato é misturado com muitos outros ingredientes, que juntos fazem do Roundup um produto altamente tóxico. Na Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai, onde esses produtos são utilizados em larga escala nas plantações de soja, as propriedades de agricultores familiares vizinhos estão sofrendo as consequências. A Organização Mundial de Saúde (OMS) compilou todas as provas científicas disponíveis e concluiu que o glifosato por si só é ‘provavelmente cancerígeno’ para os seres humanos. Isto deveria ter conduzido a uma proibição na UE, com base na legislação sobre agrotóxicos. Nos EUA, isso levou a processos judiciais, resultando em multas enormes para a Bayer-Monsanto. Como resultado desses processos, muito material tem sido publicado (os ‘Monsanto Papers = Papéis Monsanto’), mostrando que a Monsanto não se importava de forma alguma com a integridade científica.

A empresa Bayer-Monsanto está agora a sofrer graves prejuízos, devido à sua própria miopia e à sua ganância.

Nina Holland, Observatório Europeu das Empresas, Bruxelas
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Nina Holland
Campanha do agronegócio
Observatório Europeu das Empresas (CEO)
Rue d'Edimbourg 26,
1050 Bruxelas, Bélgica
Tel.: +32 2 8930930
Celular: +32 466 294420
Celular (Holanda): +31 6 30285042


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Fonte: Luc Vankrunkelsven







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